quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

POSIÇÕES SITUACIONISTAS A RESPEITO DO TRANSITO

POSIÇÕES SITUACIONISTAS A RESPEITO DO TRANSITO

1

O erro de todos os urbanistas é considerar o automóvel individual (e seus subprodutos, como a motocicleta) essencialmente como um meio de transporte. A rigor, ele é a principal materialização de um conceito de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a divulgar para toda a sociedade. O automóvel como bem supremo de uma vida alienada e, inseparavelmente, como produto essencial do mercado capitalista está no centro da mesma propagando global: ouve-se com freqüência, este ano, que a prosperidade econômica norte-americana dependerá em breve do êxito do slogan: “Dois carros por família”.

2

O tempo gasto nos transportes, como bem observou Le Corbusier, é um sobre-trabalho que reduz a jornada de vida chamada livre.

3

Precisamos passar do transito como suplemento do trabalho ao transito como prazer.

4

Querer refazer a arquitetura em função da existência atual, maciça e parasitaria dos carros individuais é deslocar os problemas com grave irrealismo. É precisa refazer a arquitetura em função de todo o movimento da sociedade, criticando todos os valores efêmeros, ligados a formas de relações sociais condenadas (a família é a primeira delas).

5

Mesmo que seja possível admitir provisoriamente, nem período de transição, a divisão absoluta entre zonas de trabalho e zonas de habitação, será necessário ao menos prever uma terceira esfera: a da vida em si (a esfera da liberdade, dos lazeres – a verdade da vida). Sabe-se que o urbanismo unitário não tem fronteiras; pretende constituir uma unidade total no meio urbano no qual as separações do tipo trabalho-lazer e coletivo-vida privada serão dissolvidas. Mas, antes, a ação mínima do urbanismo unitário é o terreno de jogos estendido a todas as construções desejáveis. Esse terreno terá o grau de complexidade de uma cidade antiga.

6

Não se trata de combater o automóvel como um mal. Sua exagerada concentração nas cidades é que leva à negação de sua função. É claro que o urbanismo não deve ignorar o automóvel, mas menos ainda aceita-lo como tema central. Deve trabalhar para o seu enfraquecimento. Em todo o caso, pode-se prever sua proibição dentro de certos conjuntos novos assim como em algumas cidades antigas.

7

Quem julga que o automóvel é eterno não pensa, até do mero ponto de vista técnico, nas futuras formas de transporte. Por exemplo, certos modelos de helicópteros individuais que estão sendo agora testados pelo exercito dos Estados Unidos encontrar-se-ão ao alcance do publico talvez daqui a menos de vinte anos.

8

A ruptura da dialética do meio humano em favor dos automóveis (há projetos de abertura de auto-estradas em Paris que acarretarão a destruição de milhares de moradias, enquanto a crise habitacional se agrava cada vez mais) disfarça a própria irracionalidade sob explicações pseudopráticas. Mas sua verdadeira necessidade pratica corresponde a um determinado estado social. Os quem os dados do problema permanentes querem, de fato, crer na permanência da sociedade atual.

9

Os urbanistas revolucionários não se preocuparão apenas com a circulação das coisas, nem apenas com homens paralisados num mundo de coisas. Tentarão romper essas cadeias topológicas por meio da experimentação de terrenos, para que os homens transitem pela vida autentica.

Guy-Ernest Debord

IS nº 3, dezembro de 1959

3 comentários:

jão disse...

opa. será que esse negócio falando de paris não tá meio datado?

afinal, agora lá o governo deles estimula o uso de bike.

ilp?

Anônimo disse...

bom, achei o texto interessante.

nao é um texto que fala especificamente de paris, ele coloca questoes que sao importantes pra pensar as metropoles, a economia e a sociedade de uma forma mais ampla. de como a cidade se torna um espaço de circulacao das coisas, negando as gentes.

acho que com bicicletas em paris ou nao sao coisas que tem de ser pensadas, e a partir daí quem sabe, até questionadas.

Luiz Navarro disse...

é, também penso que o texto é aterritorial. e sensacional.